quinta-feira , 3 abril , 2025

Crítica | Vera Egito rememora um dos capítulos mais tensos da Ditadura Militar brasileira com ‘A Batalha da Rua Maria Antônia’


A Ditadura Militar foi um dos períodos mais sombrios da história brasileira e, até hoje, estende suas amedrontadoras ramificações para grupos extremistas cujo principal objetivo é cercear direitos e bombardear a própria democracia. Estendendo-se por árduos vinte e um anos, o levante militar contra a Constituição Nacional depôs o presidente eleito João Goulart e minou a liberdade de expressão de qualquer um que se opusesse ao governo golpista – prendendo homens, mulheres, crianças, estudantes, políticos e artistas como forma de reafirmar um poder que não lhes pertencia. E, agora, somos convidados a explorar um dos capítulos mais chocantes daquela época com o lançamento de A Batalha da Rua Maria Antônia.

Narrado ao longo de uma madrugada, o enredo reavido e remodelado por Vera Egito (‘Amores Urbanos’, ‘Serra Pelada’) acompanha o beligerante conflito entre os estudantes de filosofia da Universidade de São Paulo, que lutavam arduamente contra o regime militar e queriam assegurar a transparência de uma votação decisiva ocorrida entre os grupos estudantis, e os estudantes da Universidade Presbiteriana Mackenzie, estandarte da defesa da ditadura e acolhedores do Comando de Caça aos Comunistas. Munindo-se de bombas caseiras, coquetéis molotovs e barricadas improvisadas, os estudantes da USP, liderados por Benjamin (Caio Horowicz), pretendiam proteger uma urna de votação até se verem presos no próprio prédio de estudo à medida que eram cercados por tropas do exército que esperavam apenas o sinal para invadir as instalações e prender quem estivesse ali.



a batalha da rua maria antonia 3

Egito constrói um espetáculo visual com o longa-metragem, compondo 21 capítulos em plano-sequência que nos levam de volta à fatídica noite de outubro de 1968 e que dialoga com as mais de duas décadas do governo militar. A diretora, que sempre prezou pela construção de obras de arte em vez de meras incursões mercadológicas, transforma o suntuoso prédio de filosofia do centro de São Paulo em um labirinto claustrofóbico, cujas maciças paredes não são fortes o suficiente para impedir uma derradeira realidade de invadi-lo. As breves uma hora e vinte de filme desenrolam-se em um misto de drama documental e suspense que analisa a angustiante espera e premedita o conflito entre o CCC e o movimento estudantil, dando espaço para várias subtramas que não se resumem apenas ao espectro político, mas se estendem para problemas interpessoais que desestabilizam a luta dos estudantes e professores.

A plasticidade fílmica é um grande acerto, e Egito tenta seguir os mesmos passos com um sólido roteiro que, vez ou outra, falha em trazer uma mandatória naturalidade às telonas em prol de investidas documentais e sisudas. Em outras palavras, certos diálogos mergulham em circinais devaneios que não acrescentam em nada para a história e para o desenvolvimento dos personagens – porém, tais deslizes são pontuais e logo são ofuscados por um trabalho admirável de um elenco que também conta com Pâmela Germano, Isamara Castilho, Julianna Gerais, Philipp Lavra, Gabriela Carneiro da Cunha e muitos outros.


a batalha da rua maria antonia 4

Egito também acerta em cheio ao não se estender em desdobramentos descartáveis, permanecendo atada a uma breve duração que deixa que uma familiar história ganhe os palcos sob uma ótica interessante e chamativa, além de promover discussões que, mais do que nunca, são de importância ímpar – principalmente considerando a ascensão da extrema direita no Brasil e na América Latina, cujas defesas da ditadura são impensáveis e perigosas. Promovendo uma experiência sinestésica, a cineasta arquiteta um encontro entre passado e presente que faz bom uso da destituição quase completa da trilha sonora (com eventuais exceções que incluem o famoso uso da canção “Roda Viva, de Chico Buarque) e de um comprometimento artístico de tirar o fôlego.

A Batalha da Rua Maria Antônia reacende debates sobre o período da Ditadura Militar no Brasil ao concentrar esforços em uma narrativa que não tem o mesmo escopo grandioso de obras como ‘O Que É Isso, Companheiro?’ e ‘Ainda Estou Aqui’, mas, dentro dos limites que impõe, é prática e funcional ao esquadrinhar eventos que merecem ser relembrados para não repetirmos erros crassos de um passado não muito distante.

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Thiago Nollahttps://www.editoraviseu.com.br/a-pedra-negra-prod.html
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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A Ditadura Militar foi um dos períodos mais sombrios da história brasileira e, até hoje, estende suas amedrontadoras ramificações para grupos extremistas cujo principal objetivo é cercear direitos e bombardear a própria democracia. Estendendo-se por árduos vinte e um anos, o levante militar contra a Constituição Nacional depôs o presidente eleito João Goulart e minou a liberdade de expressão de qualquer um que se opusesse ao governo golpista – prendendo homens, mulheres, crianças, estudantes, políticos e artistas como forma de reafirmar um poder que não lhes pertencia. E, agora, somos convidados a explorar um dos capítulos mais chocantes daquela época com o lançamento de A Batalha da Rua Maria Antônia.

Narrado ao longo de uma madrugada, o enredo reavido e remodelado por Vera Egito (‘Amores Urbanos’, ‘Serra Pelada’) acompanha o beligerante conflito entre os estudantes de filosofia da Universidade de São Paulo, que lutavam arduamente contra o regime militar e queriam assegurar a transparência de uma votação decisiva ocorrida entre os grupos estudantis, e os estudantes da Universidade Presbiteriana Mackenzie, estandarte da defesa da ditadura e acolhedores do Comando de Caça aos Comunistas. Munindo-se de bombas caseiras, coquetéis molotovs e barricadas improvisadas, os estudantes da USP, liderados por Benjamin (Caio Horowicz), pretendiam proteger uma urna de votação até se verem presos no próprio prédio de estudo à medida que eram cercados por tropas do exército que esperavam apenas o sinal para invadir as instalações e prender quem estivesse ali.

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Egito constrói um espetáculo visual com o longa-metragem, compondo 21 capítulos em plano-sequência que nos levam de volta à fatídica noite de outubro de 1968 e que dialoga com as mais de duas décadas do governo militar. A diretora, que sempre prezou pela construção de obras de arte em vez de meras incursões mercadológicas, transforma o suntuoso prédio de filosofia do centro de São Paulo em um labirinto claustrofóbico, cujas maciças paredes não são fortes o suficiente para impedir uma derradeira realidade de invadi-lo. As breves uma hora e vinte de filme desenrolam-se em um misto de drama documental e suspense que analisa a angustiante espera e premedita o conflito entre o CCC e o movimento estudantil, dando espaço para várias subtramas que não se resumem apenas ao espectro político, mas se estendem para problemas interpessoais que desestabilizam a luta dos estudantes e professores.

A plasticidade fílmica é um grande acerto, e Egito tenta seguir os mesmos passos com um sólido roteiro que, vez ou outra, falha em trazer uma mandatória naturalidade às telonas em prol de investidas documentais e sisudas. Em outras palavras, certos diálogos mergulham em circinais devaneios que não acrescentam em nada para a história e para o desenvolvimento dos personagens – porém, tais deslizes são pontuais e logo são ofuscados por um trabalho admirável de um elenco que também conta com Pâmela Germano, Isamara Castilho, Julianna Gerais, Philipp Lavra, Gabriela Carneiro da Cunha e muitos outros.

a batalha da rua maria antonia 4

Egito também acerta em cheio ao não se estender em desdobramentos descartáveis, permanecendo atada a uma breve duração que deixa que uma familiar história ganhe os palcos sob uma ótica interessante e chamativa, além de promover discussões que, mais do que nunca, são de importância ímpar – principalmente considerando a ascensão da extrema direita no Brasil e na América Latina, cujas defesas da ditadura são impensáveis e perigosas. Promovendo uma experiência sinestésica, a cineasta arquiteta um encontro entre passado e presente que faz bom uso da destituição quase completa da trilha sonora (com eventuais exceções que incluem o famoso uso da canção “Roda Viva, de Chico Buarque) e de um comprometimento artístico de tirar o fôlego.

A Batalha da Rua Maria Antônia reacende debates sobre o período da Ditadura Militar no Brasil ao concentrar esforços em uma narrativa que não tem o mesmo escopo grandioso de obras como ‘O Que É Isso, Companheiro?’ e ‘Ainda Estou Aqui’, mas, dentro dos limites que impõe, é prática e funcional ao esquadrinhar eventos que merecem ser relembrados para não repetirmos erros crassos de um passado não muito distante.

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