Aos 36 anos, o ex-ator e diretor Brady Corbet vive auge da sua carreira. Após conquistar o Leão de Prata de Melhor Direção, no Festival de Veneza, e o Globo de Ouro em janeiro deste ano, ele agora está entre os favoritos ao Oscar, que acontece no dia 2 de março. Seu filme O Brutalista está indicado a impressionantes dez prêmios da Academia e estreou nos cinemas brasileiros em 20 de fevereiro, trazendo consigo um enredo impactante e a polêmica em torno do tempo de duração — três horas e 34 minutos.
Em entrevista exclusiva ao CinePOP, Corbet revelou detalhes sobre a concepção do longa e a trajetória até sua conclusão. “Adrien e eu nos conhecemos em 2019. E, naquela época, alguém já tinha sido escalado para o papel. […] Quando o papel finalmente ficou disponível, entrei em contato com ele, torcendo para que dissesse sim. Eu realmente comecei a sentir que o filme não funcionaria com mais ninguém”, declarou o diretor.
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Indicado ao Oscar de Melhor Ator, Brody entrega uma das performances mais impactantes de sua carreira ao interpretar László Tóth, um arquiteto húngaro e sobrevivente do Holocausto que encontra no sonho americano uma jornada repleta de esperanças e contradições. “Adrien e eu conversamos longamente sobre sua mãe, Sylvia Plachy, que é uma fotógrafa extraordinária. Falamos sobre a fuga dela da Hungria em 1956, durante a revolução. Realmente nos conectamos. Fiquei pensando nele por um bom tempo“, completa Corbet sobre o protagonista.
Um retrato do pós-guerra e da imigração
O Brutalista é um retrato imersivo do pós-guerra e dos pilares sobre os quais os Estados Unidos foram erguidos. O filme nos faz refletir se o brutalismo do título se aplica a algo além da arquitetura. O longa, portanto, mergulha em temas como antissemitismo, imigração, capitalismo e o embate entre a optimismo americano e a profundidade cultural europeia.
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A direção de Corbet confere uma força narrativa ao filme, que preenche suas três horas e trinta e quatro minutos de duração com imponência visual e dramaticidade crescente com auxílio da trilha sonora de Daniel Blumberg. O diretor, que escreveu o roteiro ao lado de sua parceira Mona Fastvold, explicou que o processo criativo aconteceu de forma intensa e rápida. “O roteiro foi escrito em seis ou sete semanas, mas falamos sobre ele por muito tempo antes de colocá-lo no papel”, contou Corbet.
O Intervalo de O Brutalista
Um dos aspectos que chamam atenção em O Brutalista é a duração e a presença de uma intermissão — um intervalo de 15 minutos —, elemento raro no cinema contemporâneo. Segundo Corbet, essa pausa já estava planejada desde o início: “A intermissão sempre esteve no roteiro. Havia uma fotografia no meio do script, uma imagem que recriamos no filme”. A decisão de incluir esse intervalo permite que o público absorva a densidade emocional da primeira parte da narrativa.
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O tempo de duração também foi cuidadosamente trabalhado na edição. “O corte original era apenas oito minutos mais longo que a versão final, e a maior parte das alterações foram ajustes sutis no ritmo. Houve apenas algumas sequências que reeditamos várias vezes, como o monólogo de Guy [Pearce] na festa de Natal.”, explicou Corbet. Dessa forma, a essência da história permaneceu fiel ao roteiro, mantendo a força e o impacto planejados desde sua concepção.
Relação entre Tóth e Van Buren
O enredo se estrutura ao redor da relação entre Tóth e seu enigmático patrono, Harrison Lee Van Buren (Guy Pearce), um magnata excêntrico que o convida para construir um grandioso centro comunitário. Com uma atuação hipnotizante, Pearce transita entre a benevolência e um lado obscuro, repleto de preconceitos e ambição desmedida.
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A presença de Guy Pearce carrega essa ambiguidade, evocando uma sensação de desconforto, tão crucial para o clima de incerteza do filme. Ao criar o personagem de Van Buren, Corbet não se inspirou em figuras como os magnatas de filmes clássicos, como Cidadão Kane (1941) e Sangue Negro (2008), por exemplo, mas em pessoas com quem trabalhou na vida real.
“Já trabalhei com muitas pessoas como ele [o personagem Van Buren]. Ele não é exatamente um personagem fictício”, confessou Corbet e completou: “Eu queria que ele tivesse a presença de James Mason (1909-1984) [Intriga Internacional] e Joseph Cotton (1905-1994) [A Sombra de Uma Dúvida]. Queria que sua maneira de falar refletisse o dialeto e o ritmo da fala dos anos 1950.”
Uma Obra Visualmente Imponente
Visualmente, O Brutalista é uma experiência monumental. A cinematografia de Lol Crawley e o design de produção de Judy Becker constroem um universo onde a arquitetura se torna um personagem por si só. As sombras e contrastes refletem o distanciamento emocional dos personagens. O minimalismo da arquitetura brutalista não serve apenas como pano de fundo, mas como um reflexo das escolhas existenciais de Tóth, cuja vida se vê, muitas vezes, limitada por muros invisíveis – tanto físicos quanto emocionais.
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Embora pareça uma trama baseada em fatos reais, a história é 100% “inspiração histórica e emoções pessoais”, de acordo com o cineasta. Ao explorar temas universais como identidade, pós-guerra e os custos humanos do capitalismo, Brady Corbet consegue se reinventar após o tropeço de Vox Lux: O Preço da Fama (2018), com apenas 62% de aprovação no Rotten Tomatoes. Na disputa pelo Oscar 2025, a obra enfrenta a concorrência de Conclave e Anora, mas se destaca por sua grandiosidade visual e narrativa.
O Brutalista não é apenas um filme sobre um período histórico ou um movimento arquitetônico. É uma meditação visual e emocional sobre as complexas forças que moldam nossas identidades e escolhas. Independentemente do resultado no Oscar, já se consolidou como uma obra que obrigará o público a refletir por muito tempo sobre o que é, de fato, o “brutalismo” — na arquitetura, na vida e na história.
Veja entrevista completa no YouTube:
Assista:
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